terça-feira, 10 de maio de 2011

Diário de bordo – Banda Godzilla Turnê Nordeste: Grito Rock 2011



Godzilla no Festival Grito Rock Campina Grande


Nossa tour pelo Nordeste brasileiro começou na madrugada do dia 23 de março, quando eu (Raoni), Sandra, Wendril e JP nos encontramos no aeroporto de Macapá e zarpamos em uma viagem de avião de mais de seis horas com direito a escala em Brasília, ronco na poltrona e muita, muita, muita comida de avião.

Desembarcamos lá pelas 2 da tarde em João Pessoa, na Paraíba, num dia bastante quente. De cara já sacamos as primeiras particularidades da região: o sotaque arretado da galera de lá e, é claro, o forró.

Assim que nos acostumamos com as diferenças mais óbvias, seguimos do aeroporto até o terminal rodoviário. Afinal, nosso primeiro destino era Campina Grande e ainda estávamos a cerca de uma hora e meia de lá.

Conseguimos um táxi que cobrou o mesmo valor da passagem de ônibus até a cidade vizinha e então pegamos a estrada.

Acredito que apenas a partir desse momento a ficha começou a cair sobre nós e percebemos que, de fato, estávamos bem longe da Macapá. A arquitetura das casas, a paisagem e as cores no céu durante a tarde, tudo era novo pra gente, tudo era diferente (sim, nenhum de nós NUNCA tinha viajado para o Nordeste).

Quando chegamos em Campina Grande fomos recebidos por um figura chamado Moreno, o nerd oficial do Natora Coletivo (PB) que já nos esperava no terminal rodoviário. Apesar de cansados, rapidamente ficamos a vontade na presença do cara, que aproveitou o momento para nos mostrar alguns dos pontos turísticos da cidade e nos falar um pouco da história local e do que acontecia por lá (bares, bandas, etc.).

Ficamos hospedados no apê do Marlo, baixista da banda fodaça de surf music Sex On The Beach (PB) e gente finíssima com quem convivemos durante os dois dias seguintes. O cara é um dos cabeças do Natora e foi super simpático com a gente, estabelecendo uma situação de amizade instantânea com todos nós.

Fomos a primeira banda a chegar para o Grito Rock Campina Grande e, portanto, tivemos bastante tempo para conhecer o dia-a-dia da cidade e aproveitar essas “férias forçadas” tomando cerveja e curtindo uma conexão de internet decente.

Um dos lugares mais impressionantes que conhecemos por lá durante esse período foi o campus da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o lugar onde almoçamos e jantamos durante nossa estadia. O clima e a sensação de que mil coisas estavam acontecendo ao mesmo tempo a partir do momento em que se cruzava a entrada da instituição é incrível. Um ambiente realmente inspirador com prédios muito bem estruturados e bons equipamentos, além, é claro, dos acadêmicos de lá, que realmente pareciam saber tirar proveito de cada um desses benefícios.


Entrevista para o Programa Vitrola


Confesso que fiquei bastante impressionado com o edifício onde funcionam os cursos relacionados a artes: salas de vídeo, ambientes para criação de animações e pianos espalhados pelos corredores me deixaram hipnotizado.

Foi nesse mesmo prédio que gravamos, na quinta-feira 24, nossa entrevista para a TV Cultura local. Foi bem uma experiência bem divertida, na real, ver a galera da banda toda tímida e gaguejando diante da câmera, rsrsrsrs.

Mas os caras do programa Diversidade foram super tranqüilos e nos deixaram fazer vários takes até tudo ficar, digamos, razoável para ambos os lados.

A sexta-feira 25 era o grande dia e já estávamos ansiosos por tocar. Ensaiamos nosso repertório por longas horas antes da viagem e tudo estava bem afinado pra hora do show. Antes de pegar no batente no Bronx Bar, local onde rolou o Grito, ainda relaxamos à beira do Açude Velho, um dos maiores cartões postais da cidade, jantando carne-de-sol na nata e carne de bode assada com cuscuz e feijão verde (uma delícia! Só o Wendril deve ter repetido o prato umas cinco vezes).

E a noite foi perfeita. Apesar de nervosos, conseguimos segurar a barra do show e mostramos pra galera de Campina Grande a qualidade do nosso som. O recado foi bem dado e pude perceber o interesse cada vez maior da galera em sacar o que mais está acontecendo aqui pelo Norte e, especificamente, aqui no Amapá.

A primeira missão havia sido cumprida com mérito, mas vale destacar as demais bandas da noite: Back Door Blues (PB) foi a primeira banda da festa e tocou seu blues rock descolado que lembra bastante a nossa Beatle George; Gandharva (PE) é um power trio que mistura influencias de britpop com as guitarras pesadas de stoner rock, vale muito a pena para quem curte som gringo modernoso; a Banda Monstro (PB) faz um som instrumental altamente psicodélico e recheado de texturas e distorções, fiquei bastante impressionado com a qualidade do som dos caras; e por fim a banda Dalva Suada (PB) que, na minha opinião, foi a melhor da noite. Os caras são uma versão do Black Sabbath nascida no sertão brasileiro, com riffs congelantes e timbres pesadíssimos de guitarra e baixo aliados a uma bateria vigorosa e vocais limpos.

E além de tudo os caras são gente boa pra caramba.

Vale a pena falar também do local da festa, o Bronx Bar. Um ambiente ideal para o evento, com o calor humano na medida, duas mesas de bilhar e um arcade muito legal rolando ao fundo (eu perdi a partida). No final deixamos nossas fotos 3x4 penduradas num mural pra garantir que havíamos, de fato, passado por ali.

A partir do sábado, dia 26, tudo virou de cabeça pra baixo pra gente. A correria foi instalada e precisávamos encarar cerca de três horas de ônibus para garantir o próximo show em Olinda, no Estado vizinho de Pernambuco. E assim foi. Acordamos já bem tarde, corremos para almoçar e depois rumamos para o terminal, onde pegamos o primeiro busão com destino à Recife, de onde enfim chegaríamos ao bar XinXim da Baiana (que nome legal, não?) onde rolou o Grito Rock Olinda.

Mal nos despedíamos da galera do Natora e já estávamos prestes a encontrar o pessoal do Lumo Coletivo. De fato, estávamos iniciando a verdadeira turnê.

Durante a viagem de bus pudemos sacar mais algumas particularidades da região. Agora, no entanto, as coisas haviam mudado: ao invés de reparamos as diferenças entre nossa terra e os lugares novos por onde passávamos, começamos a perceber as similaridades, o quanto existe de parecido entre todos nós e que nos torna, de fato, parte de um mesmo lugar.

Foi muito legal sacar os municípios pequenos dos dois Estados, mesmo que só de passagem, por de trás da janela do ônibus.

Enfrentamos alguns problemas na estrada e chegamos completamente em cima da hora no Grito Olinda. E o pior, seriamos a primeiríssima banda a tocar na noite. Tomamos um banho apressado ainda em Recife e nos dirigirmos até o Xinxim da Baiana o mais rápido possível.

Toda a galera do Lumo nos esperava lá pronta pra ver o som rolar. Plugamos prontamente nossos instrumentos e começamos a gritaria. E mais uma vez a recepção não poderia ter sido melhor.

Nova missão cumprida, não tivemos nenhum tempo para sacar as outras bandas da noite ou mesmo conversar com alguém. O único ônibus que saia para o município de Floresta, nossa próxima parada, partiria às 10 horas da noite. A correria continuou. Seguimos para o terminal de Recife, pegamos uma sacola de lanche preparada pelo pessoal do Lumo (valeu galera, estávamos precisando), compramos as passagens e entramos no ônibus mais uma vez, em uma viagem que duraria praticamente toda a madrugada.

Por volta das quatro da matina chegamos enfim ao terminal rodoviário de Floresta. Já era quase manhã do domingo, dia 27, nosso último dia de turnê. Nossa expectativa apenas crescia.

O clima de cidade pequena me remeteu imediatamente a Santana, minha cidade natal, e quase me senti em casa.

O município não possui nenhum coletivo local e o Grito Rock de lá tava sendo organizado por bandas locais e por algumas pessoas que curtem e apóiam a boa música.

Fomos recebidos pelo Hallison, um cara simpático e tranquilão que nos conduziu até uma pousada bem aconchegante onde poderíamos dormir tranquilamente durante o dia.

Ao chegar lá, logo depois de guardar nossas malas, um café-da-manhã reforçado nos esperava no saguão. A essa altura já estávamos todos sem grana, e comida de graça era altamente bem-vinda. Mesmo assim, o destaque mais uma vez vai para o apetite do Wendril e sua criatividade na criação de novos pratos, como o infame abacaxi com ovo (depois ele passa a receita).

Tivemos um bom dia para descansar em Floresta. Minha voz já começava a falhar e os dedos de Sandra já contavam dois calos enormes, sem falar que, com toda a correria dos últimos dias, mal havíamos dormido. Precisávamos repor as forças pra fechar a turnê com chave de ouro.

Já no meio da tarde nos levantamos, tomamos banho e fomos conhecer o lugar onde rolariam os shows do Grito Rock.

O Grêmio 3 de Julho era um lugar bonito e espaçoso e o som que usaríamos naquela noite era enorme. Ainda deu tempo de sacar um pouco da cidade na companhia do pessoal da banda Novaguarda Celestial (PE). Galera gente boa que nos trouxe uns bons goles de vinho.

Mais uma vez fomos a primeira banda da noite. Precisávamos pegar o ônibus de volta para Recife às 22 horas (de novo) e tivemos que nos adiantar.

Posso garantir que o show em Floresta foi o que teve a melhor receptividade de toda a tour. Saímos do palco com a galera gritando o nome da banda e querendo nos conhecer, tirar fotos e estabelecer contato quase como se fossemos uma atração internacional. Serio mesmo. Foi uma experiência um tanto surreal pra gente.

Infelizmente não pudemos retribuir todo a atenção que recebemos da galera pois precisávamos zarpar de novo. Depois de alguns abraços e distribuição de camisas e adesivos, corremos até o terminal onde descobrimos um grande problema: não haviam mais vagas no ônibus. Após um breve minuto de desespero decidimos nos recompor e fomos conversar com o motorista, o mesmo que nos havia trazido na noite anterior.

Gente finíssima, o motora, de nome Melquizedeque (Melqui para os íntimos), disse que nós iríamos voltar sim, mesmo que não houvessem mais cadeiras vazias. E, bem, foi exatamente o que aconteceu. Passamos umas boas horas em pé, na cabine do Melqui, conversando sobre a vida, o universo e tudo mais, enquanto apreciávamos a paisagem noturna do Estado e as suas intermináveis estradas e insetos no pára-brisa.

Após um sono rápido, quando algumas cadeiras finalmente desocuparam, chegamos, enfim, ao Recife, lugar de onde nosso vôo partiria naquele mesmo dia, segunda-feira 28, à noite. Fomos recebidos dessa vez pelo baterista da banda Desalma (PE), o Renato, que nos levou até um albergue maneiro onde pudemos dormir mais um pouco.

Após longos banhos, café preto e assinaturas nas paredes do albergue, fomos resgatados pela galera do Lumo Coletivo. Chegamos a sede dos caras e garantimos um almoço e um passeio turístico pela capital do manguebeat (conhecemos, inclusive, o lugar onde Chico Science morreu!!! sério). Uma cidade belíssima, posso garantir. Espero realmente que a banda Godzilla possa voltar lá com mais calma um dia.

Passamos o resto do dia com o Alejandro, o cabeça do Lumo, que nos falou bastante sobre a cena local, a efervescência cultural de Recife e Olinda e a consciência crescente da galera de lá acerca da necessidade de garantir espaço para artistas populares.

Recife realmente é uma cidade que olha para a cultura de uma forma única. Infelizmente, é uma exceção no Brasil.

Por outro lado, também foi incrível notar a admiração que as pessoas envolvidas em coletivos têm para com o Palafita, o Estado do Amapá e o Festival Quebramar. Todas as bandas e todas as pessoas envolvidas com cultura que conhecemos, sem exceções, demonstraram grande interesse em conhecer o Amapá e nos falaram com entusiasmo da forma com que o Coletivo Palafita lida com os demais coletivos e com o Fora do Eixo em geral.

Muito bom poder comprovar na real a atenção que as pessoas de outros Estados têm dado pra gente e a força que as bandas daqui tem conquistado nos últimos anos perante o cenário nacional.

Talvez essa tenha sido a maior lição dessa viagem.

Por fim, a noite chegou, a galera do Lumo nos conseguiu um táxi e rumamos para nossa próxima parada: o aeroporto. Apesar da alegria em viajar pela primeira vez em turnê com a banda Godzilla, o cansaço só nos fazia desejar chegar em casa, mais uma vez, e dormir por uma semana inteira.

E tudo o que nos resta dizer é que a experiência foi incrível. Nos sentimos vivendo uma aventura durante todos os dias que duraram nossa tour, nos divertimos, trabalhamos, conhecemos pessoas e tocamos. Enfim, expandimos nossos horizontes e garantimos um novo pique para as próximas empreitadas que virão.

Obrigado e até a próxima.

Raoni Holanda

Um comentário:

Caatingueira Sonora disse...

opa pessoal da palafita!

sou hallyson de floresta/pe e fico bastante feliz de o godzilla ter gostado de se apresentar aqui e de falar tão bem!

valew pessoal a presença no grito rock floresta 2011 e espero que voltem mais vezes

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